Por um lado, integra muitos portugueses que trabalham nas instituições europeias e em organizações ligadas ao espaço comunitário, acompanhando de perto os grandes debates políticos, económicos e institucionais que marcam o futuro da Europa. Por outro, representa também os muitos compatriotas que, ao longo de décadas, fizeram da Bélgica a sua casa, construindo aqui a sua vida familiar e profissional e dando um contributo decisivo para a afirmação da comunidade portuguesa neste país.
É precisamente nesta capacidade de unir diferentes gerações, percursos e experiências que reside uma das maiores riquezas da secção do PSD Bruxelas-Bélgica. A nossa estrutura é, por isso, mais do que uma simples organização partidária no estrangeiro: é um espaço de encontro entre portugueses, de participação política e de ligação permanente a Portugal.
Mas esta realidade específica deve também servir para uma reflexão mais ampla sobre o lugar das secções das comunidades na vida interna do Partido. Apesar do trabalho desenvolvido, da dedicação dos militantes e da importância crescente das comunidades portuguesas, continua a sentir-se, em muitos aspetos, uma distância excessiva entre estas estruturas e a dinâmica partidária nacional. Essa distância não é apenas geográfica. É também orgânica, política e, em certa medida, motivacional.
Militar no estrangeiro exige uma disponibilidade e uma convicção particularmente fortes. Em Portugal, a militância partidária pode traduzir-se, com maior naturalidade, em percursos de participação política e cívica mais próximos e tangíveis, seja através de uma junta de freguesia, de uma câmara municipal, de uma assembleia municipal, de estruturas distritais, da Assembleia da República ou mesmo, em certos casos, de funções governativas. No estrangeiro, esse horizonte é naturalmente mais limitado, o que torna a militância mais exigente e, por vezes, menos apelativa, sobretudo para os mais jovens e para aqueles que se encontram numa fase ativa da sua vida profissional. Esta realidade coloca desafios concretos à mobilização, ao recrutamento e à continuidade do envolvimento político nas secções das comunidades.
É precisamente neste contexto que a nossa “jota”, a JSD de Bruxelas, assume um significado ainda mais relevante. Sendo a primeira secção da JSD fora de Portugal, tem um valor histórico e simbólico inegável, mas evidencia também uma questão que merece reflexão: há jovens portugueses no estrangeiro disponíveis para militar, participar e assumir responsabilidades partidárias, mas nem sempre encontram um modelo de militância adaptado à sua condição temporária e profissionalmente móvel.
Muitos jovens deslocam-se para Bruxelas, ou para outras zonas da Bélgica, por razões académicas ou profissionais, durante alguns anos, sem intenção de cortar a sua ligação política à secção de origem em Portugal. Por isso, faria sentido equacionar soluções de maior flexibilidade, como a possibilidade de uma dupla militância, que permitisse a estes militantes participar plenamente na secção de Bruxelas enquanto permanecem no país, sem necessidade de pedir transferência de militância e sem perda da ligação à sua estrutura de origem em Portugal. Uma solução deste tipo poderia ser particularmente importante para reforçar a participação dos jovens e dos militantes em idade ativa nas secções das comunidades.
Há ainda uma outra dimensão que importa não ignorar. Muitos militantes no estrangeiro vivem ciclos próprios de participação: saem de Portugal em idade ativa, constroem fora uma parte importante do seu percurso profissional e cívico, e regressam mais tarde ao País quando termina a sua vida profissional ativa e chega a reforma. Esta realidade significa que a militância nas comunidades tem uma natureza temporal, mas para o partido não deve ser vista como periférica ou transitória, mas como parte integrante de um percurso político e humano que continua, muitas vezes, em Portugal. Também por isso, o Partido tem tudo a ganhar em valorizar mais estas estruturas, acompanhando melhor os seus militantes ao longo das diferentes fases da vida.
Ao mesmo tempo, as comunidades não vivem apenas de reflexão interna. Vivem também de causas concretas, com impacto direto na sua ligação ao País e na sua participação na vida democrática. Nesse quadro, o voto eletrónico e o programa “voltar” foram bandeiras de campanha importantes, mobilizadoras e com significado muito concreto para os portugueses no estrangeiro.
No caso do voto eletrónico, trata-se de uma medida essencial para facilitar e alargar a participação democrática dos portugueses residentes fora do território nacional, tornando mais acessível o exercício de um direito fundamental e aproximando o sistema político da realidade atual da diáspora. No caso do programa “Voltar”, importa recordar o trabalho político feito em torno de uma proposta que fala diretamente a muitos portugueses emigrados: a criação de condições para que quem saiu possa regressar a Portugal com dignidade, previsibilidade e apoio efetivo. Foi também com estas bandeiras que fizemos campanha com o então candidato e hoje Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, afirmando uma visão que reconhece nas comunidades não apenas uma memória da emigração, mas um ativo decisivo para o futuro do País.
A partir de Bruxelas, estas questões ganham uma particular relevância. Aqui percebe-se bem como Portugal tem muito a ganhar com comunidades politicamente ativas, organizadas e valorizadas. Percebe-se igualmente que o PSD, enquanto grande partido nacional, deve olhar para as secções das comunidades não apenas em momentos eleitorais, mas como estruturas permanentes de representação, de mobilização e de pensamento político, inclusive no que diz respeito à União Europeia.
A secção do PSD/Bruxelas-Bélgica continuará a assumir esse papel com sentido de responsabilidade, com orgulho no seu percurso e com plena consciência da sua especificidade. No coração da União Europeia, queremos continuar a ser uma ponte entre a Europa, Portugal e a sua diáspora, entre a emigração histórica e os portugueses que hoje trabalham no centro da decisão europeia, entre a experiência acumulada de várias gerações e a energia de novos militantes e lusodescendentes.
Essa é a nossa missão. Mas é também a nossa expectativa: que o Partido esteja mais próximo das secções das comunidades, que reconheça melhor a especificidade da sua militância, que encontre soluções mais flexíveis para a participação dos jovens e dos militantes em mobilidade, e que assuma plenamente que o futuro do PSD também se constrói fora de Portugal.